Para o guru do CRM, com o contato de cliente com cliente, nunca foi tão importante para as
empresas investirem na confiança.
Por mais que o mundo dos negócios mude, uma máxima nas empresas continua válida: entrada menos saída é igual ao lucro.
Don Peppers, especialista em gestão de relacionamento com clientes e guru do CRM,
garante que essa máxima continua válida, mas ele tem um pequeno adendo
a fazer sobre o papel do cliente. O faturamento da empresa depende
muito da sua reputação e isso está mudando radicalmente com as
ferramentas de web 2.0.
“É
muito fácil ver qual é a reputação de uma empresa via internet. Com o
contato de cliente com cliente, nunca foi tão importante para uma
companhia investir na confiança”, disse.
Em entrevista por
telefone com o COMPUTERWORLD, ele fez questão de destacar as redes
sociais, portais de votação e sites de favoritos como os grandes atores
dessa mudança. Segundo ele, ferramentas como Orkut, Facebook, MySpace,
devem ser encaradas pelas corporações como redes de clientes.
“É
preciso entender qual é a natureza de evolução das redes, como se
comportam as pessoas que têm maior poder de influência”, destacou.
Peppers ressalta que os gestores precisam entender e se informar para
aproveitar o momento de fusão das grandes tendências que estão
alterando radicalmente o panorama das relações entre corporações e seus
clientes.
História realO especialista conta uma história real para
explicar a nova dinâmica da internet. O site de bookmarks sociais
Reddit tinha em Adam Fuhrer um dos seus principais colaboradores. Ele
com as suas análises, indicações e posts gerava, sozinho, milhões de
pageviews e visitas aos sites para os quais colocava links. No sistema
de votos do portal, Adam conseguia estar entre os 10 usuários mais
votados.
Um único detalhe: Adam Fuhrer tem 13 anos. E, mesmo
assim, ele é um dos grandes influenciadores da internet. Esse grupo é
responsável por uma movimentação típica da web conhecida como “efeito
cascata”. Em outras palavras, um internauta bastante conceituado posta
algo e isso é reproduzido e repercutido por vários blogs e sites,
ganhando o rapidamente o mundo.
Classificado na reportagem do
Wall Street Journal como “um dos influenciadores secretos” do mundo da
web 2.0, Fuhrer é a epítome de um movimento que, segundo Don Peppers,
modifica ou deveria modificar a maneira pela qual as empresas se
relacionam com seus clientes. Peppers: “Se um influenciador chave
escrever algo falso ou mentiroso, isso vai passar para frente de
maneira espantosa. E pessoas mal intencionadas vão se aproveitar e
atacar ainda mais a marca”.
Para não ficar apenas como um
conceito abstrato, Peppers conta o inferno que a Dell passou em 2005
após um blogueiro muito influente ter postado a sua história de horror
com a fabricante de PCs texana. O que se seguiu a esse post foi uma
onda de repúdio a Dell, feito de várias histórias revoltantes
espalhadas em posts e iniciativas de boicote à empresa. Não é a toa que
esse episódio ficou conhecido como Dell Hell (inferno da Dell, em uma
tradução livre).
“Nada adiantou depois uma consultoria fazer a análise e descobrir
que boa parte do ‘efeito fúria’ estava baseada em mentiras e em
interpretações erradas do contrato”, relata Peppers. Ele completa:
“Esse caso poderia, simplesmente, tirar uma empresa do mercado. Não
aconteceu com a Dell por que era bem estabelecida, mas quantas podem
suportar um movimento desses?”.
Para o especialista, o Dell Hell
mostra como os influenciadores da internet podem destroçar uma marca
estabelecida durante anos se apoiando apenas na internet e em
ferramentas de web 2.0. “Uma empresa comete um erro ingênuo ao achar
que pode controlar ou gerenciar as redes sociais. Você não pode. A
melhor estratégia é ser confiável. Assim, a sua empresa tem uma base de
clientes que pode defender no caso de um escândalo”, aconselha.
Ser o anfitrião resolve?
Uma estratégia cada vez mais
comum de empresas em busca de aproveitar os benefícios (e minimizar os
danos) das redes sociais e sites de bookmarks está em criar para os
clientes um espaço de relacionamento patrocinado pela empresa.
Portais
como o Ideastorm da Dell ou a rede social do Starbucks são apenas os
exemplos mais recentes dessa onda corporativa. As empresas estão sendo
bem sucedidas em evitar as crises quando são anfitriões dos clientes?
Essa é uma boa estratégia?
“Não existe modelo que só traga
benefícios. Antes de apostar em qualquer iniciativa dessas, uma empresa
precisa responder: ‘estamos prontos para ter clientes fazendo análises
e colocando opiniões sinceras’? É um salto de fé”, garante.
Peppers
afirma que, mais do que ser o anfitrião da discussão dos clientes, as
empresas precisam apostar em moderar os debates nas redes que criaram.
“Não falo de proibir declarações negativas, mas mau comportamento e
xingamento. Além de criar um ambiente melhor para os internautas, ainda
elimina reclamações raivosas”, disse.
A construção de um
ambiente de confiança com o cliente depende de uma resposta sincera e
rápida sobre a dúvida ou pedido dele, deixando claro o que a empresa
fez. “Se há um post ruim, a empresa procura o cliente para descobrir o
que aconteceu de errado. Depois, a melhor saída é mantê-lo informado.
Agindo com honestidade, constrói uma confiança que garante a defesa da
companhia”, disse.
E não é por que estamos no Brasil que essa
movimentação vai ter um efeito reduzido ou retardatário. Don Peppers
acredita que essa mudança no comportamento dos clientes tem escala
global e é invariável. “Mesmo com culturas e línguas diferentes, não
vejo como uma compra acontecer sem ser definida pela confiança do
cliente na marca em que está comprando”, completou.
Fonte: ComputerWorld